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Contos que ensinam e fascinam

Juliana Romão

Um grupo de atores percorre o Brasil encantando as plateias infantis e mostra como os professores podem transformar a contação de histórias em um momento mágico.

O grupo carioca Tapetes Contadores de Histórias, formado há 15 anos por estudantes de artes cênicas da UniRio, provoca a imaginação e convida a dar um passo adiante na magia e pedagogia da contação de histórias. Com projetos sempre relacionados ao ato de contar e ouvir, o grupo percorre o Brasil e o mundo mostrando que essa arte pode ser ainda mais fascinante do que já se imaginava, indo além do livro ou da história oral. A trupe confecciona tapetes tridimensionais de pano, que servem de cenário para contos populares de nacionalidades diversas, e desenvolve uma linguagem singular, mesclando oralidade, artes plásticas, animação e atuação. É impressionante o envolvimento das crianças que participam da experiência.
 
A técnica utilizada é a narração de histórias e manipulação de formas, podendo ser aplicada por um experiente ator, por um avô que deseja aproximar-se do neto ou, especialmente, por um professor em sala de aula. Basta que seja adaptada ao que se pretende, garante o ator Warley Goulart, especialista em literatura infantil pela Universidade Federal Fluminense (UFF), um dos coordenadores e fundadores do grupo. “É uma atividade lúdica, plástica e sensorial, que estabelece uma forte relação com o livro e com o ato de ler”, define. “Quando a criança percebe que todo aquele universo mágico e criativo veio de um livro, fica encantada, seja onde for”, afirma Goulart. Para ele, contar e escutar histórias proporciona uma qualidade de contato entre as pessoas que permite um “profundo e prazeroso intercâmbio de experiências”, resume.
 
Quando essa troca de conhecimentos acontece na educação infantil, os ganhos tornam-se visíveis. “As crianças são muito receptivas a tudo o que é lúdico”, destaca. Quando é contada com o auxílio de objetos diversos servindo de cenário, a história leva o imaginário infantil mais além e conecta a criança com a arte e a literatura. Além disso, garante Warley Goulart, os reconhecidos benefícios da tradicional roda de leitura — crescimento vocabular, desenvolvimento cognitivo e afetivo, socialização — ganham ainda mais efetividade. 
 
Nada disso acontece, porém, sem esforço e dedicação. É necessário haver organização e planejamento para despertar na criança a vontade de ler associada a uma sensação prazerosa, que, quando nasce nessa idade, pode durar a vida toda. “O papel do professor é fundamental nesse estímulo à prática e à rotina de leitura. Um profissional esforçado e empenhado em desenvolver bem esse trabalho faz toda a diferença”, destaca o especialista. Para ele, o professor que busca qualificar-se é capaz de fazer uma sala inteira apaixonar-se pela leitura. Goulart acredita que o educador deve servir de modelo: “Em muitos níveis, o professor precisa recuperar a autoridade do antigo ‘mestre’ no sentido de ser quem guia, orienta.” 
 
Bom leitor, bom contador
Por essas razões, a primeira exigência para o educador que quer contar histórias é gostar de ler. “Um bom leitor é potencialmente um bom contador”, afirma o músico, ator e também contador de histórias Edison Mego, outro integrante do grupo. Segundo ele, ter prazer na leitura e intimidade com o universo literário e suas possibilidades são requisitos importantes. “Uma vez, fui à belíssima biblioteca de uma escola e, quando tentei pegar um livro, a professora repreendeu-me: ‘Não, não pega! Acabamos de arrumar’”, lembra-se ele ainda rindo da situação. “Imagina como a criança se sente, sendo proibida de tocar no livro para não mudar a ordem ou algo assim”, observa. 
 
O modo como o professor também se relaciona com o livro transmite-se para a criança — e tanto o exemplo negativo quanto o positivo são marcantes. Mego destaca que a criança que recebe o estímulo do conto e reconto amplia os horizontes, entendendo melhor o mundo que a cerca. “Existem diversos referencias e sensações na contação, porque se trabalha a relação com a memória e o contato afetivo que cada um vai resgatando ao ouvir uma palavra, um som, uma situação”, comenta. 
 
Os tapetes costurados pelo grupo são de pano. Ricos em texturas e possibilidades cênicas, abrigam um universo inteiro de personagens e lugares que vão sendo manipulados pelo contador em cada etapa da história. As crianças que participam das sessões projetam-se na atividade, ficando magnetizadas: respondem às perguntas, tentam descobrir o final e não desgrugam os olhos daquele universo particular que está sendo mostrado.
 
Quando podem, todas querem pegar os tapetes, mexer nos bonecos e experimentar a sensação de fazer parte daquele mundo especial. “Estou gostando muito de estar aqui”, diz uma estudante de 6 anos da Escola Municipal Abílio Gomes, de Recife (PE), logo após ouvir a história do Espelho Mágico, um conto popular resgatado por Luís da Câmara Cascudo. Sem deixar de pegar nos tapetes-brinquedos, ela conta que participou da sessão com sua professora, Maria Júlia das Neves, e toda a turma. 
 
A educadora garante que a participação na apresentação do conto mudou a todos. “Foi muito importante vir aqui, tanto para as crianças quanto para mim. Elas adoraram viver esse universo e eu fiquei com vontade de tentar outras técnicas na sala de aula”, relata a professora. Para ela, a contação de histórias às crianças é rica em diversos aspectos. “Além do que elas aprendem com a história, os contextos e as relações, aprendem também sobre regras: fazer silêncio, prestar atenção, esperar a hora de falar”, destaca. 
 
Professor contador
Na sala de aula, o professor contador não precisa ser um ator, exímio costureiro ou artista plástico talentoso e capaz de projetar tapetes sofisticados como os do grupo. “Ele pode criar o próprio cenário, com papel de presente, cartolina ou pinturas”, explica Warley Goulart. 
 
Se o professor não sabe por onde começar, ele sugere que se dedique à escolha do texto, sempre adequado à idade do leitor. Ele explica que até os 3 anos a criança ainda se atém muito ao som, às formas e aos gestos. Depois dessa idade, ela começa a se aproximar do processo narrativo e a se interessar por outros elementos textuais, sendo interessantes os livros com diálogos e mais personagens. O livro escolhido deve ser lido mais de uma vez pelo educador antes de trabalhá-lo como conto. “Temos de conhecer bem a história, suas nuances, a sonoridade das palavras e frases”, ensina. Depois de dominar o texto, é mais simples usar as mãos e o cenário.
 
A próxima etapa é pensar no material que pode servir de ambientação. Vale a criatividade. Pratos de papel, papel alumínio, cartolina, latas, copos plásticos, embalagens diversas: qualquer objeto pode ser transformado em cenário, compondo a paisagem e os personagens. “É sempre interessante escolher materiais próximos ao universo das crianças”, avisa o ator, sugerindo que os alunos devem participar da criação e também se envolver no processo. Com planejamento, a confecção dos objetos pode ser uma ótima ferramenta didática para se trabalhar outros conteúdos, como quantidades, cores, formas, etc. 
 
Feita a ambientação, é hora da contação em si, que deve ser pensada sempre como um momento especial. Não importa tanto se as crianças estarão em círculo ou lado a lado; elas precisam estar confortáveis para que a atenção esteja focada no mundo da história. Ao contador também é exigida concentração e uma regra de ouro: não subestimar a criança. A orientação é da peruana Rosana Reátegui, atriz e coordenadora do Manos que cuentan, projeto de pesquisa e criação de livros de pano a partir da literatura oral peruana, premiada como Melhor Livro Objeto pela Câmara do Livro do Peru. A seu ver, o respeito está na forma de falar e de se relacionar com o leitor mirim: “Sem diminutivos ou entonação de bebê”, adverte. 
 
Segundo Rosana, é muito comum as pessoas acharem que é preciso falsear a voz para contar uma história, mas isso não é verdade. “O bom conto não está relacionado simplesmente à voz, e sim às emoções que transmite”, esclarece a atriz. O professor vai continuar sendo visto como o professor, mas um professor especial, que está contando uma história mágica. Ele não deve querer ser o personagem, e sim a pessoa que apresenta o conto às crianças. Rosana explica que é interessante para a criança perceber que é mesmo o professor, e não outra pessoa. 
 
Além disso, aconselha a seguir a história como está no livro ou na tradição oral, quando for o caso, evitando poupar a criança de palavras mais difíceis e sentimentos mais fortes. “As histórias são como a vida: estamos caminhando e, ao longo do percurso, nos deparamos com algum sentimento de alegria, dor, raiva”, observa. Para a atriz peruana, as histórias ajudam a fantasiar, mas também preparam para o mundo real, e isso não deve ser negado aos pequenos. 
 
É importante que o professor tenha acesso a um acervo amplo de histórias para variar o estilo e as sensações transmitidas. “Não é porque estamos tratando de crianças que as histórias precisam ser sempre engraçadas ou ter um final previsível”, destaca Rosana Reátegui. Ela também enfatiza a necessidade de perceber a criança como um ser sensível, que sente todas as emoções do conto. “Muitas vezes, as crianças riem quando é sério, justamente por perceber essa seriedade”. 
 
Além do conto 
Para contar uma história, o coordenador do grupo Tapetes Contadores de Histórias explica que é importante um ambiente iluminado e silencioso. O educador precisa ser escutado por todos e estar numa posição em que consiga olhar nos olhos de cada aluno. “É uma questão de treino mesmo”, alerta Warley Goulart. “É preciso treinar os sons, tons, gestos, olhares de surpresa, tristeza, alegria e tudo o que vai ajudar na troca de emoção”.
 
Contudo, o momento da história não deve ser o único contato da criança com o livro e com a leitura. É importante propor atividades relacionadas à leitura lúdica depois da contação, permitindo que as crianças brinquem com os cenários, tenham contato com a materialidade dos livros e sintam-se livres para recontar as histórias literalmente ou de maneira diversa. Goulart acredita na criatividade e na sensibilidade do professor para aproximar a criança desse universo. “O professor pode fazer um livro circular na casa de cada um dos alunos, elaborar uma rotina de brincadeiras literárias, visitar a biblioteca e lá realizar atividades especiais”, exemplifica o coordenador, reforçando a imensa força do modelo que o professor representa, especialmente na educação infantil. 
 
As principais dúvidas dos professores quanto ao processo narrativo que utiliza a técnica da manipulação de objetos é sobre como fazer uso dos personagens, como dominar a narração. Nas oficinas que Warley Goulart realiza, ele sugere sempre ao educador que tente se divertir com essa atividade. Quando a história escolhida é adequada e lida diversas vezes por ele, fica retida na memória, permitindo que as outras ferramentas narrativas ganhem vida: “O educador precisa gostar de ler, treinar e também se divertir”. 
 
Crédito da imagem:
Foto: Renato Mangolin
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