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Em conexão com a aprendizagem

Reportagem // Marcos Giesteira

Com grande crescimento em abrangência e qualidade nos últimos anos, a educação a distância desponta como alternativa de capacitação profissional no Brasil.

Embora a educação a distância (EAD) não seja uma novidade no Brasil — registros apontam que já eram oferecidas aulas de datilografia por correspondência em 1904 —, foi na década de 1990 que ela passou a ser mais conhecida no país, impulsionada principalmente pela disseminação da internet. Em 1996, foram estabelecidas as bases legais da modalidade e, desde então, a variedade de cursos oferecidos e de estudantes matriculados não para de aumentar. “Com os avanços das tecnologias da informação e da comunicação, qualquer pessoa com um mínimo de iniciação em tecnologia pode fazer inúmeros cursos de aperfeiçoamento e inclusive de qualificação profissional sem sair de casa”, diz a coordenadora geral de Regulação da Educação Superior a Distância do Ministério da Educação (MEC), Cleunice Rehem.
 
Segundo ela, a oferta de cursos na modalidade vem crescendo tanto na educação formal (graduação, pós--graduação e educação básica) quanto na não formal (cursos livres). Em 2002, registraram-se 40.714 matrículas na educação superior a distância; em 2005, o número passou para 114.642; em 2009, já eram 832.125 e, em 2011, o número chegou a 992.927, ou seja, um aumento de 2.300% em um espaço de nove anos. Em cursos técnicos, somente por meio da Escola Técnica Aberta do Brasil (e-Tec), mais de um milhão de pessoas inscreveram-se em 2012. Luciano Sathler, diretor da Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED), lembra que a EAD já responde por aproxi­madamente 16% do total das inscrições na graduação. “Não só no Brasil, mas no mundo inteiro, a oferta e a demanda na educação a distância crescem mais do que na presencial”, comenta.
 
O censo da educação superior produzido em 2011 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) mostrou dados sobre a aprendizagem a distância: 231 instituições credenciadas para oferta (hoje já são 245), 1.044 cursos e 992.927 matrículas, sendo que 26,6% dos cursos são tecnológicos, 30,2% são bacharelados e 43,3% são licenciaturas. As graduações com maior quantidade de ingressantes são Pedagogia (103.520), Administração (60.163), Gestão de Recursos Humanos (27.473) e Serviço Social (25.762). Em cursos de pós-graduação lato sensu, registraram-se cerca de 180 mil inscrições. Por outro lado, o levantamento realizado pela ABED, também em 2011, apontou um total de mais de 2,7 milhões de alunos em cursos livres, predominantemente de aperfeiçoamento.
 
Expansão
Tão impressionante quanto o crescimento da EAD é sua perspectiva de expansão. Conforme a coordenadora do Núcleo de Tecnologia Digital Aplicada à Educação (Nuted) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Patricia Alejandra Behar, a expectativa é haver 1,2 milhão de estudantes matriculados em cursos de nível superior a distância no Brasil até 2022. Outra novidade é que, a partir de 2015, a Universidade Aberta do Brasil (UAB) deverá abrir duas mil vagas para os cursos de Matemática, Biologia, Pedagogia e Administração Pública na modalidade não presencial em Moçambique. “A EAD está crescendo em nível exponencial, e uma das grandes responsáveis por isso é a UAB, que oferece cursos e forma professores em diversas áreas com o objetivo de disseminar o ensino de jovens e adultos em várias áreas do conhecimento”, explica.
 
Limitações
Precursora do uso da informática em sala de aula no Brasil e testemunha de modelos aplicados em países como Inglaterra, Espanha, Venezuela e Índia, a professora e coordenadora do Laboratório de Estudos Cognitivos (LEC) do Instituto de Psicologia da UFRGS, Léa Fagundes, aponta que o grande problema da EAD continua sendo a tendência de reproduzir as limitações dos conhecimentos apenas apresentados, transmitido em diferentes meios a alunos passivos, em vez de mudar o paradigma da crença na transmissão para as ricas possibilidades de um novo paradigma de educação interativa para a construção do próprio conhecimento. “Embora possam dispor dos recursos de comunicação ampla, individual e coletiva, em qualquer tempo e em diferentes espaços, os currículos programados para os cursos a distância permanecem lineares, sequenciais, segmentados em disciplinas desintegradas, que usam preferencialmente recursos de leitura e produção de textos acompanhados de exercícios repetitivos”, constata.
 
Ainda assim, a professora considera que os cientistas de algumas universidades brasileiras estão conseguindo experimentar novos modelos e desenvolver opções em EAD cada vez mais inovadoras. Também elogia a criação de grupos de pesquisa específicos em universidades que desenvolvem projetos para investigação das necessidades de mudanças paradigmáticas na educação da cultura digital, para avaliação de resultados e para divulgação de novas arquiteturas pedagógicas. 
 
Na opinião do presidente da Associação Brasileira dos Estudantes de Educação a Distância (ABE-EAD), Ricardo Holz, houve um grande avanço nos referenciais de qualidade, já que até 2006 não estava bem definido o que se esperava de um curso de graduação a distância no Brasil. Era uma espécie de “cheque em branco” e cada instituição de ensino superior fazia o que queria. A partir de então, esclarece ele, estabeleceu-se um referencial de qualidade, como a necessidade de bibliotecas, computadores, polos de apoio e avaliações realizadas obrigatoriamente de modo presencial. “Contudo, ainda precisamos avançar muito no que tange ao atendimento ao aluno”, alerta. Para Holz, é necessário ampliar a quantidade e a qualidade dos tutores a distância e o número de corretores das avaliações a fim de reduzir as distorções nas correções de provas dissertativas. Outro ponto que precisa ser revisto com urgência, segundo ele, é a inclusão dos alunos de EAD no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), pois até hoje eles não são contemplados na linha de crédito.
 
Formação de professores
Apesar das amplas possibilidades do ensino a distância, a EAD ainda é mais utilizada no Brasil em graduação e pós-graduação. Segundo Cleunice Rehem, do MEC, há cursos na modalidade que, pela configuração curricular, podem beneficiar-se com mais intensidade das tecnologias para a promoção da aprendizagem dos estudantes. “São exemplos os cursos na área das ciências sociais, humanas e das tecnologias, os quais predominam em termos de oferta e matrículas”, destaca.
 
A pedagogia é justamente uma das especialidades que mais se utiliza do formato a distância, incentivada pelo grande número de programas de formação continuada de professores. Conforme Patricia Behar, que integrou o corpo docente do primeiro curso de pedagogia a distância realizado pela UFRGS, um dos motivos é a exigência de graduação que passou a ser feita aos professores. “A única maneira de eles poderem se formar é em uma universidade que tenha o curso a distância, já que muitos dão aula durante o dia”, justifica. Ela destaca que, apenas na Universidade Estadual de Maringá (UEM), 3,6 mil alunos já se formaram em pedagogia a distância. “São professores de escolas públicas que não tinham diploma”, conta.
 
Luciano Sathler, da ABED, destaca que, do total de alunos matriculados em graduação a distância no Brasil, 40% estão em cursos de formação de professores. Em sua opinião, isso traz uma vantagem muito grande, visto que os profissionais chegam à sala de aula já dominando as ferramentas tecnológicas que utilizarão durante o processo, o que facilita o contato com os alunos da educação básica. “O aluno que está chegando, que é nativo digital, encontra mais facilidade com o professor que já vivenciou essas tecnologias”, observa.
 
O que mais preocupa os especialistas é a preparação dos docentes para saber utilizar as tecnologias e aproveitar as vantagens que a educação a distância pode oferecer. “A EAD precisa considerar que uma de suas funções é oferecer, na formação dos educadores, um momento preliminar para aprender a usar os recursos digitais, seja em introduções presenciais, seja a distância”, ressalta Léa Fagundes.
 
A professora Juliane Corrêa, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), alerta para o fato de que a EAD não é apenas internet e, dependendo dos contextos, é necessário pensar em outras possibilidades de mediação tecnológica. “A lógica é outra, pois não basta armazenar informações e comprar aplicativos. O fluxo do acesso à informação mudou, e as nossas organizações de ensino ainda enfrentam dificuldades para incorporar outra lógica quanto a acesso, distribuição e produção do conhecimento”, reconhece.
 
Interação
Patricia Behar defende que a presença física não é fundamental na aprendizagem e a EAD pode ser equivalente à presencial, desde que a plataforma seja utilizada corretamente e que existam momentos síncronos que possibilitem o encontro entre estudantes e docentes. “Se for bem-feita, não perde em nada. Pelo contrário, a EAD é mais individualizada e o feedback é dado para o aluno”, ressalta.
 
Na opinião de Léa Fagundes, a cultura digital muda as concepções de tempo e de espaço. Para ela, usando esses recursos, não é preciso considerar contato físico, mas sim possibilidade de interações. “Através dos ambientes e dos aplicativos na rede, professores, tutores e alunos podem interagir muito mais intensamente do que se estivessem sentados uns ao lado dos outros em fileiras na mesma sala, impedidos de olhar e falar e tendo de se manter todos atentos à exposição de um único educador, sem questionar e sem discutir, aceitando passivamente tudo o que não conseguem entender e problematizar”, enfatiza.
 
Para Juliane Corrêa, a presença física é importante em situações nas quais realmente precisamos da interação; contudo, de modo geral, a aprendizagem pode ser mediada em um fórum ou em uma troca de e-mails, sem com isso perder o foco. “A questão da qualidade do processo formativo está na proposta pedagógica, e não no fato de ser presencial ou a distância”. E exemplifica: “Dependendo da proposta pedagógica, há cursos não presenciais que, devido à sua inserção nos contextos profissionais, atendem mais à realidade do campo do trabalho do que alguns cursos que permanecem com estratégias de ensino-aprendizagem muito acadêmicas ou escolarizadas”.
 
Engana-se quem pensa que a EAD tem custos menores do que a educação formal. Em alguns casos, dependendo da quantidade de profissionais envolvidos, das tecnologias utilizadas e de alunos que interagem fora do horário das aulas, a modalidade pode ser até mais cara. Juliane Corrêa relembra que fazer um bom curso a distância implica investir em um sistema instrucional, seja por meio de materiais impressos ou videográficos, seja por meio de um ambiente virtual ou de um sistema de tutoria para o acompanhamento do processo formativo. “Garantir a interação com qualidade não é fácil nem barato”, observa.
 
Credibilidade
Ainda existe certa desconfiança em relação à qualidade da EAD: uma pesquisa recente, realizada pela Universia com mais de 10 mil internautas de nove países ibero-americanos, inclusive o Brasil, apontou que 60% dos entrevistados acreditam que a educação a distância tem menos credibilidade do que a presencial, ideia contestada por Patricia Behar, para quem os profissionais formados a distância estão sendo muito bem-vindos no mercado de trabalho, estando inclusive à frente dos egressos da educação presencial, já que esses cursos exigem competências como autonomia, planejamento, fluência digital, iniciativa própria, organização do tempo e presença social. “Os alunos precisam contribuir, participar e realmente estar presentes escrevendo, argumentando e posicionando-se. São alunos ativos, característica que no sistema presencial não é uma exigência”, compara a professora.
 
Um aspecto que colabora nesse contexto é o perfil dos alunos da EAD. Nos cursos de graduação, a média é de 33 anos, o que se traduz, de modo geral, em um público mais experiente, focado na aprendizagem, que muitas vezes está em busca de uma segunda formação. Cleunice Rehem avalia que, com a ampliação da oferta e o desenvolvimento tecnológico crescente, os cursos a distância estão aperfeiçoando-se, a mediação didático-pedagógica vem produzindo educação de melhor qualidade e os estudantes também evidenciam crescente desenvolvimento de competências.
 
Ela destaca que os rumos educacionais estão sinalizando que, em pouco tempo, todos os cursos superiores serão organizados por percentuais cada vez mais altos de EAD em seus componentes curriculares. E a coordenadora acrescenta: “É a tendência do blended learning — hibridização de modalidades em um mesmo curso, o que forçará naturalmente a queda total do preconceito contra a educação a distância, que ocupou o seu lugar e avança para liderar as ofertas educacionais no Brasil, como já ocorre em boa parte do planeta”.
 

Como escolher bem um curso a distância
 
1 Verifique se a instituição é credenciada pelo MEC e confira se o ato emitido está dentro do prazo de validade.
2 Confira se o polo de apoio presencial é credenciado e exija o ato comprobatório.
3 Informe-se de quais são as atividades presenciais obrigatórias. A legislação exige provas, trabalho de conclusão do curso, estágio e práticas laboratoriais (as três últimas se o projeto do curso assim o exigir).
4 Verifique quantos tutores e professores são disponibilizados, pois a relação desses com o número de alunos é fator diferencial de qualidade.
5 Saiba como são disponibilizados os materiais didáticos. 
6 Pesquise qual é a bibliografia disponível. 
7 Analise como ocorre a interatividade. 
8 Pergunte sobre as atividades a distância. 
9 Verifique qual é o ambiente virtual de aprendizagem (AVA) utilizado pela instituição.
10 Examine como ocorre a avaliação da aprendizagem. 
11 Pergunte qual o apoio pedagógico que os estudantes têm nas dificuldades com os conteúdos e a aprendizagem.

 

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