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A missão de despertar o interesse pela leitura

Entrevista com JOSÉ MORAIS

A formação de leitores sempre esteve na pauta do educador português José Morais, professor emérito da Universidade Livre de Bruxelas, onde ensinou psicologia e neuropsicologia cognitiva. Seus principais temas de pesquisa envolvem o processamento da linguagem escrita e oral. “Estou aposentado, isto é, tenho liberdade total para trabalhar. Participo de pesquisas no laboratório do qual continuo a fazer parte, procuro promover a causa da leitura por esse meio e através de escritos e palestras”, conta Morais.

Nesta entrevista, ele analisa a relação dos jovens com a leitura na sociedade contemporânea e fala sobre o importante papel da escola, dos professores e das mídias digitais no incentivo à leitura.

O senhor acredita que os jovens estão lendo menos do que em outras épocas?
Não disponho de estatísticas a esse respeito e duvido que as que existem levem em conta todas as variáveis indispensáveis a uma comparação quantitativa válida. No entanto, creio que os jovens de hoje leem mais do que os das décadas de 1980 ou 1990, porque a leitura na tela de computador, de e-book e de celular também é leitura. Em proporção, a leitura de obras literárias (que é só uma pequena parte da leitura em suporte de papel) terá diminuído muito, não só por causa da leitura em suporte informático, mas também porque a leitura de textos informativos, científicos e técnicos tende a monopolizar a formação dos jovens. Tão premente quanto a universalização da habilidade de leitura é que a antiga insistência quase exclusiva em sua aprendizagem não deixe mais na sombra o papel crucial da habilidade de escrita. O seu ensino deve ter lugar desde o início da alfabetização, assegurando-se a correção da ortografia e a capacidade de composição de textos. Leitura e escrita não são independentes: na cadeia comunicativa — por exemplo, nas mensagens trocadas para realizar uma entrevista como esta —, cada uma é para a outra um chamamento irrecusável.

Qual o papel das tecnologias digitais na formação de novos leitores?
Está em produção uma metanálise1 de 84 estudos qualificados sobre mais de 60 mil alunos da pré-escola ao 12° ano (sobretudo nos Estados Unidos). Ela mostra que os efeitos das aplicações tecnológicas (computadores, internet, quadros interativos, multimídia), comparados aos do ensino tradicional, são estatisticamente significativos, embora sejam pequenos. Os maiores efeitos foram obtidos em escolas onde as aplicações tecnológicas são integradas na atividade de ensino do professor e apoiadas por uma experiência profissional considerável.

Como é o trabalho realizado nas escolas envolvidas no estudo?
Nessas escolas, o esquema utilizado é tipicamente de 90 minutos de ensino por dia a grupos de 15 alunos. Cada período começa por uma lição de 20 minutos de leitura partilhada e depois os alunos, em grupos de cinco, participam rotativamente nas seguintes atividades: instrução assistida por computador, leitura independente e instrução com o professor. Em um programa assistido por computador (Alphie’s Alley), o professor trabalha com cada aluno do 1° e 2° anos em uma coordenação total entre o tutor humano e a tecnologia. Em outro (Team Alphie), as crianças trabalham por pares no computador com um professor para cada três pares. A individualização da aprendizagem através de computador pode trazer vantagem, mas transforma-se em desvantagem se levar a uma menor instrução pelo professor ou se não houver ligação entre os dois tipos de ensino. É preciso que os professores tirem proveito daquilo que o aluno fez no computador. O computador ajuda, mas o professor continua a desempenhar o papel principal. Os efeitos positivos são ligeiramente maiores nas crianças com dificuldades de aprendizagem e também se observam nos anos superiores (do 9° ao 12°).

Que diferenças entre a leitura em suportes digitais e no papel são importantes em relação à aprendizagem e às capacidades cognitivas?
A leitura em computador (é errado falar de leitura digital ou eletrônica, porque em todos os casos a leitura é realizada por processos da mente e do cérebro humano) não é fundamentalmente diferente da leitura no papel, mas exige a implementação de estratégias de navegação que estão menos presentes na leitura de texto tradicional. Duas delas são o processamento inicial da súmula gráfica (estrutura do texto com indicação dos títulos das secções e das relações entre elas), que permite formar uma ideia geral antes da leitura dos conteúdos, e a seleção de rotas com finalidade coe–siva (cohesive hyperlinking), que permite maximizar, durante a compreensão, a relação semântica entre as seções.2 Por volta dos 11 anos, quando se desenvolve a habilidade para ligar diferentes episódios de um texto, observa-se uma correlação entre o desempenho em leitura e a estratégia de seleção de rotas. Os que mais utilizam essa estratégia são também os que leem melhor. Quando se tem um objetivo em mente, seguir as rotas coe–sivas maximiza a probabilidade de ler ideias relacionadas, de integrá-las, de realizar ciclos de compreensão. É importante para a compreensão das matérias.

Como a relação do aluno com as tecnologias da informação e da comunicação (TICs) afeta a capacidade de leitura?
Descrevo dois estudos que analisaram dados do PISA 2009. Em um deles,3 observou-se que, quanto mais positiva e maior for a confiança nas TICs, mais frequente é a leitura (de todos os tipos) em computador e melhor é o desempenho em leitura no PISA. Curiosamente, a disponibilidade de acesso a computadores na escola não se correlaciona com a leitura, segundo o PISA, nem com a frequência de leitura no computador. Não é o caso da disponibilidade de acesso ao computador em casa que tem efeito negativo sobre a leitura (PISA), porque os alunos o utilizam sobretudo para jogos on-line e outras atividades que não envolvem leitura. Se considerarmos apenas a sua utilização em atividades de leitura (dewikis, enciclopédias on-line, notícias, temas específicos, informações práticas, participação em fóruns de discussão, etc.), então o efeito no desempenho em leitura será positivo. O outro estudo,4 que examinou a coorte de alunos espanhóis que fizeram o teste de leitura no computador no PISA 2009, confirma o que acabo de dizer. O desempenho nesse teste foi mais influenciado pela utilização do computador para busca de informação do que para atividades sociais (chat, etc.). Infelizmente, porém, são mais numerosos os jovens que passam mais tempo envolvidos com as atividades sociais: 66% quase ou nunca participam em fóruns de discussão e 40% quase ou nunca leem notícias, ao passo que 48% conversam várias vezes por dia e 78% várias vezes por semana.
    
Qual é o papel da escola como promotora de leitura? O que ela poderia fazer junto com outras instituições sociais?
Antes de responder à sua pergunta, quero dizer que o Brasil é um dos países com maior índice de desigualdade de condições de educação. Em um estudo5 que comparou Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Colômbia e México, com base no PISA 2006 e 2009, o Brasil teve o pior desempenho. No PISA 2009, os alunos brasileiros do ensino público obtiveram, em média, 398 pontos em leitura e os do ensino particular 516: 118 pontos de diferença! Mais do que em países como Uruguai (95), Argentina (86), Colômbia (68), México (48) e Chile (46). Ora, 90% das crianças e dos adolescentes brasileiros escolarizados frequentam a escola pública. Além disso, como a taxa de frequência escolar é a mais baixa desses seis países, o Brasil é considerado pelos autores do estudo como o mais preocupante. Na população ativa da próxima década, haverá uma pequena elite rodeada de uma esmagadora maioria de indivíduos sem a mínima preparação para a sociedade do conhecimento. As capacidades de leitura e escrita estão na raiz do conhecimento. Onde são adquiridas? Na escola (à parte casos excepcionais, geralmente de crianças de meio sociocultural favorecido). Portanto, não há escapatória: aconteça o que acontecer em termos de crescimento da riqueza e de mobilidade social, é na escola que serão formadas as futuras gerações e é a escola que terá de ser mudada.  

Ainda que em alguns países os índices totais de leitura sejam muito baixos, como no Brasil, não se pode dizer que os jovens não leiam. Porém, muitas vezes a escola “mata” o gosto por essa atividade ao propor leituras inadequadas e distanciadas da realidade do jovem. O senhor concorda?
Se a escola “mata” o gosto pela leitura, não é porque propõe leituras distanciadas da realidade do jovem. É porque não há, prévia ou paralelamente, o esforço necessário para mostrar-lhe que a realidade que não é ainda a dele merece ser conhecida. A ideia de se ater àquilo que é a realidade já familiar é a própria negação do espírito de educação e de descoberta. Por que há jovens que gostam de ouvir Bach ou ler Kafka? Porque alguém, por vezes só pelo exemplo, despertou-lhes a curiosidade de conhecê-los. É verdade que o gosto da leitura e o interesse pela leitura (mais exatamente, leitura por interesse, desejo de conhecer mais sobre certos tópicos) estão correlacionados com o desempenho em leitura.6 É verdade que, embora a habilidade de leitura aumente substancialmente entre 8 e 12 anos, o gosto por ela diminui7 e continua a diminuir durante a adolescência. Isso é problemático, porque a exigência acadêmica em termos de leitura aumenta cada vez mais.

A eficiência em leitura depende da prática da leitura, que, por sua vez, é influenciada pela motivação para ler. Só se lê quando se quer ler e quando se lê com algum objetivo. Sabe-se que as meninas leem muito mais do que os meninos: é o gosto da leitura que dá conta de 42% da diferença entre os dois sexos no desempenho em leitura.8

O que os educadores devem aprender para transformar as experiências dos jovens em conteúdo para a sala de aula?
A receita é simples: despertar-lhes o interesse, mostrar-lhes que o material a respeito do qual se lhes propõe a leitura merece tal esforço. Como se consegue isso? Estando o próprio educador profundamente entusiasmado pelo que quer comunicar, pelo que quer fazer partilhar. Por isso, se não gostar de Guimarães Rosa e esse autor fizer parte do programa, procure compreender por que não gosta, releia-o com a melhor das disposições e, se continuar a não gostar, diga aos seus alunos que não gosta, mas que sabe que há quem goste muito e que lhes ficará reconhecido se um deles for capaz de lhe dar alguma boa razão para gostar de Guimarães Rosa.

Como envolver todos os professores da escola no compromisso de ler e escrever em todas as áreas?
A leitura é uma atividade permanente, mas que muda ao longo do percurso escolar. Já vimos que a busca de informação no computador implica uma seleção de caminhos, uma navegação impensável na leitura de um romance. Esses problemas devem ser discutidos pelo grupo de professores. Há textos que apresentam fatos; outros, argumentos; outros, ainda, imagens e figuras de estilo. A partir de mecanismos gerais de leitura e escrita, que devem estar instalados nos primeiros três anos, há que se aprender as especificidades dos tipos de texto que correspondem às diferentes disciplinas. A prática da leitura e da escrita tem um enorme poder sobre nossas capacidades para além delas mesmas. Influencia inclusive nossa capacidade criadora. Há dados que mostram que o pensamento criativo, sobretudo no seu componente de elaboração, aumenta com a prática da leitura e da escrita.9

Em sua opinião, qual o maior desafio para a escola entender e potencializar a formação para a leitura entre os jovens estudantes?
Os desafios relativos à escola deveriam, antes de tudo, ser colocados pelos governos. Os problemas são essencialmente três: 1) formação e recrutamento dos professores; 2) definição de currículos e metas; 3) gestão das escolas públicas segundo princípios estudados e aplicáveis a todas elas. No que se refere às metas para leitura e escrita, e aos indicadores de desempenho correspondentes, remeto quem esteja interessado aos objetivos e aos indicadores de desempenho elaborados em Portugal por uma pequena equipe da qual participei e que foram aprovados em agosto por despacho ministerial.

Dos três problemas mencionados, qual deles o senhor considera o mais importante?
A questão mais importante é a dos professores. O maior problema é que, à parte algumas exceções, as universidades ainda não dispõem de pessoal competente para formar os professores das escolas. Se eu fosse ministro da Educação, a minha primeira iniciativa seria reunir um grupo de especialistas estrangeiros e nacionais, entre os mais reconhecidos internacionalmente, que pudessem responder à seguinte pergunta: “O que deve saber um professor para ensinar a ler e escrever às crianças brasileiras e fazer com que todas, salvo as que sofrem de certos transtornos, estejam alfabetizadas (capazes de decodificar e escrever mais de 90% das palavras e ler com compreensão textos simples) no fim do 1° ano? E que tenham adquirido os mecanismos automáticos, típicos do adulto, de identificação das palavras e da sua ortografia no fim do 4°?”. Isso já é possível em muitos países. Por exemplo, na Espanha, na Itália e na Alemanha, as crianças leem em torno de 95% das palavras no fim do 1° ano — e muitas crianças portuguesas, que estudam onde o ensino é melhor, já se aproximam disso.

O que os professores precisam aprender com seus jovens alunos?
A escutá-los, observá-los, compreendê-los, identificar neles os erros persistentes e as intuições encorajadoras. Devem lembrar-se de que não sabem tudo nem têm necessariamente razão em tudo. Compete-lhes fazer com que os alunos vejam neles exemplos de sinceridade, de modéstia, de justiça, de vontade de saber, de recusa de não compreender, de espírito crítico que nenhum dogma e nenhum preconceito jamais submeterá.

NOTAS
1. Cheng, Educ. Res. Rev., http:dx.doi.org/10.1016/j.edurev.2012.05.002.
2. Salméron (Comp. in Human Behav., 2011). Esta e as outras fontes podem ser encontradas acessando-se “scholar.google”.
3. Lee (Learn. &Individ. Differ., 2012).
4. Gil-Flores (Comp. & Educ., 2012).
5. Gamboa (Econ. Of Educ. Rev., 2012).
6. Retelsdorf (Learn. & Instruct., 2011).
7. Smith (Learn. & Indiv. Differ., 2012).
8. Chiu (Sci. Stud. Read., 2006).
9. Wang (Think. Skills & Creat., 2012).


Créditos da Imagem:
Foto: divulgação
 

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