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Os livros no alto da estante

Luciene Cerdas

Na escola, devem ser promovidas situações diversificadas de leitura: ler para se informar, para adquirir e ampliar conhecimentos, para se comunicar, para se entreter... Enfim, a percepção inicial das crianças acerca da leitura como uma atividade prazerosa deve ser estimulada

“Emília estava na sala de Dona Benta, mexendo nos livros. Seu gosto era descobrir novidades — livros de figura. Mas como fosse muito pequenina, só alcançava os da prateleira de baixo. Para alcançar os da segunda, tinha de trepar numa cadeira. E os da terceira e quarta, esses ela via com os olhos e lambia com a testa. Por isso mesmo eram os que mais a interessavam. Sobretudo uns enormes” (Lobato, 1967, p. 3). A cena descrita por Monteiro Lobato se, por um lado, revela o desejo da boneca de entrar em contato com os livros, por outro representa o misto de prazer e frustração que essa atividade representa para aqueles que não podem chegar às estantes mais altas de nossa sociedade letrada. Entre os obstáculos ao universo da leitura e da escrita, que na ficção se reduzem às limitações físicas da pequenina personagem, está, na realidade, o analfabetismo.

Os índices de alfabetismo funcional e analfabetismo, apresentados em levantamentos como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) e o Indicador Nacional de Analfabetismo Funcional (INAF), ambos de 2009, tornam visível um cenário no qual 9,7% da população brasileira acima de 15 anos é analfabeta, o que corresponde a cerca de 14,1 milhões de pessoas.

Os indicadores revelam ainda que 52% dos brasileiros entre 15 e 64 anos que estudaram até o 4º ano do ensino fundamental atingiram apenas um grau rudimentar de alfabetismo: são capazes de localizar informações explícitas em textos curtos, mas não compreendem textos mais longos, nem localizam informações que exijam alguma inferência. Desse total, 9% são considerados analfabetos absolutos, embora tenham frequentado a escola. É a triste constatação de que o nível de escolaridade nem sempre garante ao indivíduo o domínio de habilidades e conhecimentos esperados.

Ainda que os índices mencionados revelem uma tendência de queda, se comparados com pesquisas anteriores, eles apontam que o acesso à escola não tem resultado necessariamente em uma ampliação significativa da aprendizagem de uma população que, por muito tempo, foi excluída da escola e que agora, apesar de ter acesso a ela, não consegue aprender ou enfrenta problemas para isso. Por aprender entende-se, em um momento inicial da escolarização, o domínio das habilidades básicas de leitura e escrita, ou seja, a decodificação/a codificação das letras e dos sons que pertencem à escrita alfabética.

Paradoxalmente, esses dados confirmam que a escolarização é o principal fator de promoção do letramento, uma vez que, quanto maior a escolaridade, maior é a chance de se atingir bons níveis de alfabetismo funcional. Daqueles que chegam à universidade, por exemplo, 71% demonstram pleno domínio das habilidades de leitura e escrita. É nessa ambiguidade que se reforça a importância da escola na formação de uma população leitora em uma sociedade complexa e cada vez mais exigente, na qual as novas tecnologias de informação e comunicação aceleram a velocidade com que as informações são veiculadas e transmitidas em variados suportes e em gêneros discursivos específicos.

Segundo a PNAD, o número de usuários da internet, no Brasil, mais que dobrou, passando de 31,9 milhões em 2005 para 67,9 milhões em 2009 — o Sudeste tem o maior percentual de usuários da internet (48,1%), enquanto as regiões Norte e Nordeste têm os menores percentuais (34,3% e 30,2%, respectivamente). A disseminação dessas tecnologias e as desigualdades tanto sociais quanto regionais no acesso a elas reforçam o papel da escola na promoção da alfabetização e do letramento das gerações futuras, visando também à inclusão digital da população.

Ao lado do analfabetismo, há outro obstáculo a ser encarado, que é a falta de estímulo à leitura. Diferentemente do que acontece com Emília — que, em suas aventuras pelo Sítio do Pica-Pau Amarelo, descobre novos mundos que Dona Benta tão carinhosamente desvela na leitura dos grandes volumes de sua estante —, a leitura costuma ser considerada uma tarefa escolar chata e cansativa. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil delineia um quadro de dificuldades que explicitam a formação precária das habilidades da leitura, como falta de concentração e paciência para ler, leitura lenta e ausência de compreensão do que se lê. Apesar disso, há uma progressiva valorização da leitura entre os indivíduos que avançaram em seu processo de escolarização. Segundo esse documento, o maior índice de leitura está entre aqueles com ensino superior.

O relatório também revela que o professor é um dos que mais influencia a formação de leitores, perdendo apenas para a mãe ou a mulher responsável pelos cuidados das crianças. Os professores exercem, portanto, um papel tão fundamental no incentivo à leitura quanto no ensino das primeiras letras. Acontece que eles nem sempre são bons leitores, apresentando fraco desempenho na recepção ou na produção oral e escrita de textos, inclusive em relação ao uso da internet. Também apontam dificuldades no acesso às tecnologias de informação ou revelam nunca terem utilizado a internet, segundo a pesquisa Perfil dos Professores Brasileiros, realizada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

A pesquisa mostra ainda que a leitura não está entre as atividades que os professores realizam com maior frequência, ficando atrás de assistir à televisão, ouvir rádio e escutar música em casa. Essa situação aponta mais um desafio a ser enfrentado quando se discute educação no Brasil, tendo em vista que, se os professores não leem, não estão em condições ideais para ensinar seus alunos a ler. Esse é um aspecto central a ser pensado na formação docente.

A escola desempenha um papel fundamental, que não vem sendo cumprido satisfatoriamente, no ensino da leitura e da escrita, em especial para aqueles indivíduos cujo contato com os materiais escritos é empobrecido por questões de desigualdade social e econômica. Ela deve contribuir para levar o aluno à condição de sujeito letrado, capaz de fazer uso da leitura e da escrita nas diferentes atividades pessoais, profissionais e sociais que exigem o domínio de tais habilidades: desde situações simples, como pegar um ônibus, ler um bilhete ou uma receita culinária, até a leitura de um artigo científico ou de um texto literário, esteja ele no papel ou em hipertexto.

A leitura como uma atividade prazerosa foi a resposta mais citada entre as crianças com idade de até 10 anos que participaram da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Ler em voz alta para os alunos, sejam eles alfabetizados ou não, parece ser um dos caminhos que os professores devem trilhar nas salas de aula, almejando a criação de contextos significativos de aprendizagem que desafiem a criança a lidar com a diversidade de textos e inclusive com o aspecto lúdico da leitura, assumindo, assim, seu papel no desenvolvimento do hábito e do gosto de ler.

Primeiramente, o professor deve ter clareza de que o aprimoramento da leitura não prescinde da alfabetização, nem do conhecimento das regras e convenções que orientam a organização da leitura e da escrita, permitindo a produção de significados. À medida que esses conhecimentos são assimilados, menos energia os alunos despendem no processo de decodificação no caso da leitura e de codificação no caso da escrita, podendo canalizar seus esforços na compreensão de textos.

O professor deve incentivar o gosto pela leitura de livros e gêneros textuais diversificados, ler em voz alta para seus alunos, contar histórias, estimular as idas à biblioteca, valorizar a leitura como fonte de entretenimento e conhecimento, estimular o cuidado com os livros e outros materiais de leitura, trabalhar com diferentes tipos de gêneros e portadores de textos, incluindo-se aí o contato com o computador e o uso da internet. As práticas e os procedimentos didáticos realizados em sala de aula devem levar em conta que, quanto mais se lê, maior é a fluência na escrita, uma vez que a leitura alarga o repertório lexical, expressivo e estilístico do aluno. É preciso também incorporar às atividades de leitura o trabalho com os conteúdos de outras disciplinas, incluindo-se, por exemplo, textos informativos e científicos ao repertório de gêneros textuais, estimulando a curiosidade do aluno pelo conhecimento por meio da leitura.

Convém que o professor estabeleça relações entre os conhecimentos dos alunos sobre leitura e escrita e o trabalho realizado em sala de aula a fim de modificar e ampliar a percepção que eles têm sobre a função social dessas habilidades. Cabe lembrar que a aprendizagem da leitura e da escrita é um processo que se dá ao longo da vida e que se inicia antes da entrada da criança na escola, no contato que ela estabelece, em seu contexto familiar e social, com diferentes textos, sejam propagandas, anúncios, bilhetes, receitas ou hipertextos. A sala de Dona Benta repleta de livros é que desperta em Emília o desejo pela leitura. Essa imagem reforça a ideia de que as crianças recebem informações sobre as funções da leitura e da escrita na sociedade. Esse aprendizado, contudo, não tem data para terminar, já que se estende por toda a vida, ampliando a capacidade de assimilação de textos cada vez mais complexos.

Na escola, para além do domínio da escrita alfabética (um meio, e não o fim da educação), os alunos devem participar de situações diversificadas de leitura: ler para se informar, para adquirir e ampliar conhecimentos, para se comunicar, para se entreter... Enfim, a percepção inicial das crianças acerca da leitura como uma atividade prazerosa deve ser estimulada, não importa a que estrato social elas pertençam.

Sem dúvida, o ensino da leitura e da escrita desperta debates que se atualizam à medida que as demandas sociais para essa aprendizagem também se modificam. Discutir a função da educação na era digital revela essa atualização e possibilita pensar sobre velhos e novos desafios para a escola e para os professores, reconhecendo tensões presentes nessa discussão.

Há uma tensão entre as antagônicas representações que a escola tem recebido. De um espaço privilegiado para o aprendizado da leitura e da escrita, sobretudo para as camadas mais carentes da sociedade, ela tem figurado como espaço do fracasso, pois, ainda que venha sendo responsável pelo aumento dos índices de letramento da população, os números do analfabetismo evidenciam que a escola não tem cumprido seu papel.

Embora o acesso a ela tenha se alargado, muitos podem ser considerados analfabetos ou situados aquém do nível esperado, mesmo depois de frequentar a escola por alguns anos. Outra tensão pode ser verificada entre a comprovada influência dos professores no desenvolvimento do gosto pela leitura e a sua falta de preparo teórico e pedagógico para ensinar a ler e escrever, uma vez que também eles apresentam dificuldades nessas habilidades, como frutos desse mesmo sistema no qual estão atuando.

Em meio a essas tensões, a formação de leitores e escritores competentes envolve mais do que boa vontade dos professores, embora eles não estejam isentos de responsabilidade e de compromisso com a educação das crianças. Ela depende de ações conjuntas dos governos, das famílias e das escolas, visando a oferecer melhores condições de trabalho e remuneração para os professores, combater a exclusão social e melhorar o sistema educacional como um todo.

Nesse ambiente controverso, a universidade deve assumir um papel de destaque na formação de professores, já que eles precisam não só ser bons leitores, mas também saber como trabalhar com a leitura em sala se aula, tendo como horizonte a aprendizagem efetiva das crianças, em especial daquelas que mais precisam da escola. Como a boneca Emília, que busca “descobrir novidades”, essas crianças desejam alcançar os livros “enormes” que ficam nas prateleiras mais altas.
 

 

Créditos da imagem:
©iStockphoto.com/norgen

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