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O último gigante da psicologia

Luca Rischbieter

Consagrado como um expoente da revolução cognitiva, Bruner nunca deixou de ser pioneiro na definição e na abertura de novas frentes de pesquisa

Jerome Bruner (1915-2016)

No dia 5 de junho deste ano, faleceu o último integrante do “quarteto fantástico” da psicologia da aprendizagem: Jerome Seymour Bruner. Norte-americano, nascido em Nova York, em 15 de outubro de 1915, Bruner foi um dos grandes nomes da área, ao lado de Henri Wallon, Jean Piaget e Lev Vygotsky. Entre suas obras que chegaram ao Brasil, três foram publicadas pela Editora Artmed: Realidade mental: mundos possíveis, Atos de significação, ambas em 1997, e A cultura da educação, em 2001.

Bruner deixou sua marca em praticamente todas as etapas e debates importantes da psicologia. Não é nada simples resumir sua trajetória secular, marcada pela abertura à cultura e ao diálogo com todos os campos do conhecimento. Tentarei fazê-lo aqui, ousando dividir em quatro etapas ou campos principais sua vastíssima obra, apresentada principalmente em uma série de livros compostos por ensaios brilhantes.
 
Revolução cognitiva
O início da trajetória de Bruner tem um marco fundamental em 1956, ano em que ele coedita A study of thinking (Bruner, Goodnow e Austin, 1956), uma das obras precursoras da revolução cognitiva. As pesquisas e análises do livro buscam as raízes do pensamento conceitual, estudado em situações de laboratório, tendo sido uma reação ao comportamentalismo vigente à época.

Em um novo prefácio, de 1986, Bruner lembra que “a insurreição original buscava nos livrar das correntes do behaviorismo antimentalista e recapturar a ideia funcionalista da mente operando não cegamente, mas com intencionalidade”, embora observe que “com o avanço das ciências cognitivas, no lugar das correntes behavioristas, encontramos instalada uma nova espécie de corrente: a computacional” (Bruner, Goodnow e Austin, 1986, p. XV), que ele julgava igualmente perigosa por negar a intencionalidade, a colaboração, a experiência e a construção ativa de significado.

Bruner logo passaria a outras linhas de pesquisa, e o desenvolvimento de sua psicologia cultural cada vez mais o levaria à investigação de aspectos da mente humana que podemos chamar de não racionais, envolvendo afetividade, interação e construção de narrativas.
 
Psicologia da aprendizagem escolar e reflexão sobre a escola
Para muitos de nós, no Brasil, o contato inicial com Bruner aconteceu por meio de dois livros voltados para a pedagogia: O processo da educação (1968) e Uma nova teoria da aprendizagem (1969), cujas primeiras edições em inglês são de 1960 e 1966. Nessas obras, encontramos um verdadeiro norte para pensar materiais e atividades didáticas, com destaque para a ideia do “currículo em espiral”, que é claramente expressa por Bruner: “Partimos da hipótese de que qualquer assunto pode ser ensinado com eficiência, de alguma forma intelectualmente honesta, a qualquer criança, em qualquer idade” (Bruner, 1987, p. 31). Este era — e ainda é — um grande desafio, que coloca em xeque o conceito de “maturidade”, de períodos antes dos quais seria inútil tentar ensinar.

Apesar de essas serem as obras mais conhecidas entre nós, há nesses livros uma aceitação implícita da função da escola como um espaço de ensino. O próprio Bruner sabia disso e, no restante de sua obra, encontramos uma visão de escola que é muito mais rica. Para nós, da pedagogia, ele também é decisivo pela visão potencial de escolas como espaços culturais ricos e instigadores, onde crianças e jovens apropriam-se ativamente dos recursos e das oportunidades oferecidos pela cultura mais ampla, construindo sua identidade pessoal e coletiva, inventado as próprias narrativas. Observam-se aí semelhanças com a visão de escola proposta por John Dewey. Revelando a sofisticação de seu pensamento, Bruner dizia que “a educação não é uma ilha, mas parte do continente da cultura” (Bruner, 1996, p. 11).
 
Pesquisas com bebês e aprendizagem da língua materna
Sobretudo na década de 1970, Bruner participou de uma série de pesquisas sobre as competências dos bebês. Um tema percorre esse conjunto de pesquisas: “as relações entre o desenvolvimento mental e a capacidade de construir comportamentos intencionais” (Bruner, 1983a, p. 16). Torna-se o mais importante pioneiro a falar sobre a riqueza das interações entre bebês e suas mães, sobre a capacidade de ação em conjunto, sobre como é impossível conceber o desenvolvimento humano isolando o bebê do meio em que ele cresce.

Essas pesquisas logo se estenderiam à aprendizagem da linguagem, que Bruner também revolucionará ao mostrar como surge inserida em uma rede incrivelmente complexa de interações sociais, em que mães e bebês constroem uma série de pequenos rituais com distribuição de papéis (Bruner, 1983b). Um de seus exemplos favoritos eram os jogos de esconder-achar, em que o bebê vai tornando-se progressivamente mais ativo. Para ele, “a linguagem é adquirida como instrumento de regulação da atividade em conjunto e da atenção dividida. Indiscutivelmente, sua estrutura reflete essas funções e sua aquisição é impregnada dela” (Bruner, 1983b, p. 210). Ao considerar a imensa riqueza desse universo de interações, faz uma crítica definitiva às visões ineístas sobre como aprendemos a falar.
 
As narrativas como pilar da psicologia cultural
As últimas décadas de atividade de Bruner foram dedicadas à reflexão sobre uma psicologia radicalmente cultural, que, sem negar os avanços do conhecimento biológico, parte do princípio de que “sem as ferramentas da cultura o homem não é um ‘macaco nu’, mas uma abstração vazia” (Bruner, 1996, p. 3). Esse importante teórico, que em 1962 já afirmava que “a arte é a forma mais avançada de comunicação” (Bruner, 1962, p. 73), dedica-se cada vez mais ao que há de não lógico, de metafórico na atividade humana e, estudando textos tão diversos como jogos de crianças, autobiografias ou decisões jurídicas, defende a importância das narrativas na construção de nossa identidade: “Vivemos em um mar de histórias, e como, segundo o provérbio, os peixes serão os últimos a descobrir a água, temos nossas próprias dificuldades para entender como é navegar em histórias” (Bruner, 1996, p. 210).

Consagrado há décadas como um grande nome da revolução cognitiva, Jerome Bruner nunca deixou de ser pioneiro na definição e na abertura de novas frentes de pesquisa. Deixa um legado vasto e belo, ao qual devemos retornar sempre.

Referências

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