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Blogs e celulares como aliados nas aulas de história

Ana Isabel Braga de Aguiar

Para promover um melhor desempenho dos alunos, é necessário que os professores aproximem sua linguagem da dos jovens. Para isso, nada melhor que usar as tecnologias digitais.

 

Leciono história no ensino fundamental e médio no Colégio Dáulia Bringel, em Fortaleza (CE). Todas as vezes que se inicia um ano letivo e recebo alunos novatos ou leciono em turmas que antes não conhecia, pergunto para que serve a história. As respostas são praticamente unânimes: “Serve para estudar o passado”. Isso me angustia e me dá a sensação de estar me comunicando com pessoas que falam outra língua. Não consigo conceber como as pessoas não percebem que a história acontece todos os dias e a todo momento. Para desmistificar essa concepção ultrapassada, proponho: vamos usar nossos smartphones para aprender história? 

Não podemos negar a realidade que nos rodeia nem fechar os olhos para ela: o celular chegou para ficar. Sendo assim, “se não pode com o inimigo, junte-se a ele”. Inimigo? Sim, para muitos educadores, o celular não passa de um inimigo que vem atrapalhar as aulas e causar discórdias e estresse entre docentes e discentes. No entanto, tudo depende do ponto de vista. Tudo depende do uso que se faz desse aparelhinho, que é um computador portátil no qual podemos entrar em contato com bibliotecas, dicionários, blogs, livros... no qual podemos criar. Criar vídeos, fotografar, gravar voz, acessar redes sociais, entre outras possibilidades. Então, por que não usá-lo para despertar a autonomia dos alunos? 

Estou investigando algumas formas de usar o celular nas aulas. Entre aquelas já encontradas, consta fazer pesquisas on-line em sala de aula, produção de trabalhos não mais escritos ou impressos em papel, mas sim virtuais, com áudio e vídeo. Isso torna a aula muito mais dinâmica, e o aluno sente-se mais estimulado. Dependendo da faixa etária, o resultado pode variar, mas é com os erros que se aprende. Por ser algo novo, são perdoados os erros, já que aprimoram os resultados futuros.

Os alunos têm algo inovador e moderno em suas mãos. Então proponho a reflexão sobre como o ser humano começou a se comunicar. Com o tema “comunicação”, podemos navegar pela história da humanidade, desde as cavernas até os dias atuais. Vamos usar a tecnologia que está em nossas mãos para pesquisar. Todo mundo pesquisando a origem da comunicação humana!

Resultado: a turma percebe que as pinturas rupestres e os pergaminhos eram formas de comunicação, que os livros e a televisão iniciaram a comunicação de massa e que esta, em especial, democratizou a comunicação. Agora estamos em sala de aula com a “cereja do bolo”, o smartphone. Através de uma pesquisa rápida na internet, os alunos aprendem essa história em minutos. 

Eureca! Esse aparelhinho não serve só para telefonar, enviar mensagens ou acessar redes sociais. As redes sociais são o suprassumo da comunicação na atualidade, e o smarthphone possibilita-nos, por meio da internet, o contato com pessoas do mundo inteiro, conhecidas ou não, aproximando-nos de pesquisas científicas e documentos raros da história da humanidade, entre outras coisas. 

Quando, em tempos passados, teríamos acesso a tais privilégios? Ao longo da aula, os alunos entendem que a escrita, o telégrafo, a máquina de escrever, o telefone domiciliar eram regalias de poucos. O que os leva a questionar: “Será que as tecnologias móveis estão revolucionando a história, professora?”; “Sem dúvida, sim!”.  

No final do século XX, os seres humanos passaram a viver em um mundo cada vez mais globalizado e conectado. Em 2008, cerca de 1,4 bilhão de pessoas estavam ligadas umas às outras através da internet, enquanto 3,3 bilhões de celulares estavam espalhados pelo mundo. Somente no Brasil, 280,5 milhões de celulares foram vendidos até novembro de 2014, segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

A Revolução Industrial gerou a padronização dos meios de produção, o uso de máquinas para substituir algumas profissões que deixaram de existir ou se adaptaram à nova situação. E agora? Outras profissões surgiram e continuarão surgindo. Nesse sentido, temos de usar as tecnologias móveis a favor da humanidade. O aluno que sabe usar seu smartphone para pesquisar, produzir vídeos sobre assuntos estudados em sala, capturar imagens com a câmera do celular para exemplificar situações cotidianas que têm relação com o assunto estudado nas aulas de história, por exemplo, torna-se autônomo, agente da história e, o melhor de tudo, protagonista de sua própria história. Aula de história é isto: formar seres humanos críticos e independentes.

Novos tempos na educação
Sabemos que tudo está mudando muito rápido no século XXI. O que é novidade hoje amanhã passa a ser velho, ultrapassado. Isso acontece em diversos setores da sociedade. Também acontece na educação? Do ponto de vista das metodologias educacionais, a resposta é sim. Vemos alunos do século XXI tendo aulas com professores que usam metodologias do século XX. E, mais que isso, vemos a falta de formação ou interesse dos docentes nesse sentido. É vital para a educação sair da zona de conforto e partir para novas experiências. 

Para promover um melhor desempenho dos alunos, é necessário que os professores aproximem sua linguagem da dos jovens. Portanto, nada melhor que usar as novas tecnologias digitais. Os blogs são excelentes aliados para esse fim. Além de poder ser criado gratuitamente, o blog oferece uma infinidade de maneiras para reformularmos as aulas. 

Só podemos afirmar que algo pode dar certo ou errado se tentarmos. Isso também acontece em sala de aula. Em abril de 2010, criei um blog voltado para as aulas de história (www.profisabelaguiar.blogspot.com.br), no qual o conteúdo das aulas fica disponível. Os alunos que faltaram a alguma aula têm o conteúdo à disposição, e os que tiverem dúvidas podem rever slides, vídeos, textos e demais informações referentes à aula. Além disso, a produção dos alunos (textos, vídeos, fotos, slides) fica à disposição dos colegas, e as questões podem ser resolvidas pelo blog, evitando-se o uso de papel. 

Outra vantagem é que e os alunos podem entrar em contato comigo a qualquer dia e horário. O blog tem auxiliado não só meus alunos, mas também estudantes de todo o Brasil. Professores de diversas regiões têm acesso ao conteúdo e podem compartilhar ideias e informações. Essa tem sido uma excelente ferramenta de ensino-aprendizagem. Os alunos podem ser igualmente incentivados a criar seus próprios blogs, o que os estimula a escrever, promove a criatividade e a autonomia e os encoraja a mostrar seus talentos. 

Aula planejada
Assim como todas as nossas aulas devem ser previamente organizadas, as aulas com celular ou blog também seguem o mesmo caminho. Os alunos têm de ser preparados previamente para a nova metodologia a fim de que desviem o mínimo de sua atenção e entendam que, naquele momento da aula, a tecnologia está a favor do aprendizado, e não do lazer. Respeitando as devidas proporções, podemos aliar aprendizado e lazer para quebrar o tabu de que toda aula tem de ser chata e cansativa.

Nesse modelo, a avaliação é contínua, sendo observados os seguintes pontos: a capacidade de abstração; o trabalho colaborativo entre os colegas; a aptidão para lidar com os equipamentos tecnológicos com vistas a construir o conhecimento; o grau de interesse em se dedicar à atividade proposta; a capacidade de colocar em prática as melhores atitudes e habilidades para controlar emoções, alcançar objetivos, demonstrar empatia, manter relações sociais positivas e tomar decisões de maneira responsável.

Utilizo o blog como ferramenta para aulas expositivas, postando o material a ser trabalhado em sala. Grande parte das atividades com o blog os alunos fazem em casa. Em sala de aula, eles são divididos em grupos para realizar as atividades de filmagem, elaboração de textos, troca de mensagens, pesquisa na internet e no blog. Depois disso, eles apresentam o resultado aos colegas em sala. Muita coisa produzida por eles eu posto no blog. Infelizmente, como não posso ir contra o sistema de avaliação tradicional, aplico provas parciais e bimestrais, mas existe uma terceira nota, que eu atribuo com base nas atividades realizadas no blog, usando o celular ou tablet.

Os resultados têm sido interessantes. Devido ao fato de poucos professores utilizarem essa metodologia, recebo quase diariamente e-mails ou mensagem via blog pedindo dicas sobre como fazer. Além de professores, estudantes de outras localidades escrevem agradecendo o auxílio que o blog tem dado a seus estudos para o ENEM e o vestibular, bem como para as atividades escolares.

Deixo claro que todos esses resultados que obtive até agora são apenas amostras. Continuo testando múltiplas possibilidades nesse sentido.

  • Ana Isabel Braga de Aguiar é graduada em História e professora no Colégio Dáulia Bringel, em Fortaleza (CE). isabelaguiar3@yahoo.com.br

 

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